Rogério da Silva



Starting from drawing techniques, the process denounces the traditional perceptions of photography. By exploring characters, events or empty interior spaces from archival images, I transport the expression of photographic memory to drawing. So I create a new memory from that expression.

      About


︎︎︎
GAIA´S PORTRAIT
Experimental Film  2019
Duration: 10´14”


Concealment and Illusion

The Portrait of Gaia (2020) is a film made from of a mobile phone and bases your speech in the Sci-Fi genre. The film explores the image as an object that hides reality and tells the story of a restless man, isolated from the world to which he belongs, as metaphor of the supremacy of image consumption by today's societies, which absorb it into a cluster of visual information, diverting it from its purpose as a thinking man and therefore of his own nature human. Inside a space station adrift in space, a man tries to understand his origin and himself. It is through images that register the events on Earth, whose mission was to capture them from space, that he seeks a return to your humanity.


O RETRATO DE GAIA
Dissimulação e ilusão

O Retrato de Gaia
(2020) é um filme realizado a partir de um telemóvel e assenta o seu discurso no género Sci-Fi. O filme explora a imagem como objecto dissimulador da realidade e conta a história de um homem inquieto, isolado do mundo a que pertence, como metáfora da supremacia do consumo de imagens pelas sociedades de hoje, as quais o absorvem para um aglutinado de informações visuais, desviando-o do seu propósito como homem pensante e, por conseguinte, da sua própria natureza humana. Dentro de uma estação espacial à deriva no espaço, um homem tenta entender a sua origem e a si próprio. É através de imagens que registam os eventos na Terra, cuja missão era captá-las do espaço, que ele busca um retorno à sua humanidade.



Exhibitions:

REVOLUTION Online international art exhibition via Oarttv.com, Paris, 2020
MOSIFF - Montenegrian online smartphone international film festival, Montenegro 2020
      


O filme foi construído com imagens captadas por um telemóvel para serem trabalhadas segundo um contexto distópico. A ideia do filme surgiu em 2019 durante uma viagem num navio de cruzeiro pelo mar mediterrâneo. Quando me encontrei  no hall principal do interior do navio, os meus olhos transportaram-me para um imaginário que eu já conhecia através de filmes, fazendo-me acreditar que estava no interior de uma nave espacial, tal era a imponência e a riqueza visual da sua estrutura. Percebi, porém, que teria ali uma fonte de material disponível para fazer registos em vídeo para um novo projecto. No entanto, após uma avaliação mais pormenorizada do espaço, verifiquei que as imagens que eu iria captar teriam de ser alteradas devido às características, para que se assemelhassem a uma estação espacial e não ao interior de um navio. Desta forma, como era impossível mexer na sua estrutura, teria que reinventá-la. Isso só se tornaria possível fazer no processo de edição.

Assim, ao fazer o registo das imagens, dei conta de que, para as trabalhar na construção do filme, estas não poderiam encontrar-se na sua forma original, mas serem semelhantes a uma outra realidade. Ou seja, interessava-me explorar uma outra dimensão fílmica que reflectisse um pensamento associado à sua concepção como uma “cosa mentale” (AMIEL, 2016; 7). Por esta razão, podemos afirmar que as imagens que compõem O Retrato de Gaia dissimulam ser o que na realidade não são. Embora a dimensão cinematográfica seja desde sempre a expressão da simulação da realidade proposta ao imaginário coletivo, ela também é, de facto, uma dissimulação para quem a constrói porque oculta a fracção do tempo em que a vida real decorre. Com efeito, não deixa de ser “um princípio de criação, uma maneira de pensar, uma forma de conceber os filmes associando imagens” (ibidem), no sentido em que a vida deve ao cinema a sua própria representação.

Após ter registado os planos que me interessavam trabalhar - os tectos, as luzes, os elevadores e os seus mecanismos e outros pormenores que sugerissem algo semelhante a um ambiente espacial, entendi que as imagens teriam de sofrer rotações e tempos para ganharem outra dinâmica num outro contexto. Por exemplo, a torre de controlo do navio teria de se transformar numa estação espacial; o elevador e a sua estrutura mecânica em vez de deslizar na vertical, passaria a deslizar na posição horizontal; o plano do tecto com as luzes seria invertido para ser o chão iluminado da estação, etc. Todos os aspectos ambientais e espaciais para produzir o filme tornaram-se importantes e indispensáveis nas várias decisões. Com efeito, os ambientes sonoros usados caracterizaram-se como parte essencial no processo, realçando aspectos visuais e narrativos que necessitavam ter um maior impacto. Para a escolha de qual o tipo de ambiente sonoro que melhor caracterizasse e transmitisse envolvimento na espacialidade do filme, foi feita uma recolha de ficheiros em bancos de áudio e colocados na linha de montagem para melhor percepção de escolha junto às imagens. Após ter sido feita a selecção dos ficheiros, estes foram colocados na aplicação Audacity para equilibrar os níveis de som e as tonalidades. No entanto foi fundamental, neste âmbito, criar níveis de expressão dramática em alguns momentos de forma a criar na narrativa uma linha de emoções variáveis para que se unissem os conteúdos visuais e sonoros ao todo cinematográfico.

O material visual foi pré-editado na App 8mm v3.1 para telemóvel e posteriormente editado e montado em Adobe Premier Pro CC. O filme foi transferido de cor para preto e branco e montado em narrativa não linear, contribuindo, desta forma, para uma dinâmica visual e um jogo de relações que, como refere Aumont, “podem ganhar em significação de uma maneira além do simples alinhamento” (2009: 114). Embora a maior parte do material usado tivesse sido realizado em vídeo, também foram incluídas fotografias para resolver algumas situações no que respeita a alinhamentos entre a narrativa e a imagem. Neste caso, o método empregado traduziu-se em filmá-las directamente a partir do ecrã do computador, movimentando o telemóvel em pequenos travellings verticais e horizontais de forma a transmitir a ilusão de uma imagem em movimento captada no local. Estas ilusões, que manipulam o olhar do espectador para que ele acredite somente no que lhe é dado a ver, é transversal e análoga à ideia central de O Retrato de Gaia que, como foi referido, aponta para a prevalência do consumo de imagens pelas sociedades de hoje, afastando o homem dos seus princípios.

Com efeito, a ilusão transmitida pelo consumo de imagens que dissimulam o real, ligadas à velocidade com que surgem diante de nós a cada segundo no dia-a-dia, não nos permite que haja tempo para escrutinar ou pôr em causa a fonte ou a sua veracidade. De que forma é que as imagens nos influenciam e nos afastam daquilo que somos? Sabemos que o seu consumo compulsivo, sejam verdadeiras ou fake, seja através dos media, troca de informações por dispositivos ou nas redes sociais, são naturalmente absorvidas sem distinção como verdades sensacionais com o “brilho” de uma sociedade, a qual Guy Débord refere que “amplia” a nossa “distância interior, na forma de uma separação espectacular”. (2003: 131) Daí, podermos afirmar que vivemos entre a verdade e a ilusão em termos de informação visual. Quanto mais as imagens se tornam mitos “virais”, numa apertada corrente de partilha, mais acreditamos que elas transportam a verdade ligando-nos gradualmente ao pensamento colectivo em detrimento do “pensarmo-nos”.

Em O Retrato de Gaia, o que nos é proposto aponta para uma distância física da Terra, aqui entendida como metáfora do afastamento do homem de si próprio, numa missão que tinha por objectivo captar e recolher imagens da terra a partir do espaço. Com a missão abortada devido a uma falha, ele fica à deriva até que, numa última tentativa de regresso, consegue partir numa pequena nave ao mesmo tempo que todas as imagens que ele não captara, lhe surgem como imagens mentais aproximando-o à sua realidade. O filme termina com um plano que mostra uma fotografia da Terra, que convoca a incerteza entre a representação do real e o que é realmente verdadeiro.


AMIEL, Vincent (2016) Estética da Montagem. Lisboa: Edições Texto & Grafia.
AUMONT, Jacques (2009) A Imagem. Lisboa: Edições Texto & Grafia.
DEBORD, Guy (2003) A Sociedade Espectáculo: www.geocities.com/projectoperiferia.


Rogério da Silva © 2022