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SOUL RETURN
Drawing 2012


Having focused attention on the poet Fernando Pessoa,  particularly in his aversion to being photographed, it became the objective of developing a series of drawings that, somehow, served to symbolically recover, through drawing, the image “stolen” by photography. The repulsion that Pessoa felt at being photographed, according to Maria José de Lancastre in her book Fernando Pessoa - a photographic biography, “is a fact that does not belong to her philosophical vision of the world, with regard to esoterism or witchcraft - something that it has a little to do with some primitive beliefs: the fear that being photographed might steal their souls.” Curiously and paradoxically, the use of the photographic memory vehicle allowed me to unveil in drawing, the plastic essence of some objects belonging to Fernando Pessoa and thus allow exploring the unexplorable access to a sphere closer to the poet's interiority.


A DEVOLUÇÃO DA ALMA

Tendo centrado a atenção no poeta Fernando Pessoa,  particularmente na aversão que tinha ao facto de ser fotografado, tornou-se como objetivo desenvolver uma série de desenhos que, de alguma forma, servissem para recuperar simbolicamente através do desenho, a imagem “roubada” pela fotografia. A repulsa que Pessoa sentia em ser fotografado, segundo Maria José de Lancastre no seu livro Fernando Pessoa - uma biografia fotográfica, “é um facto que não pertence à sua visão filosófica do mundo, no que se refere ao esoterismo ou à feitiçaria - algo que tem um pouco a ver com algumas crenças primitivas: o medo de que ser fotografado possa roubar suas almas ”.
Curiosa e paradoxalmente, o uso do veículo da memória fotográfica permitiu-me desvendar no desenho, a essência plástica de alguns objectos pertencentes a Fernando Pessoa e assim permitir explorar o inexplorável acesso a uma esfera mais próxima da interioridade do poeta.



Exhibition:
Casa Fernando Pessoa, Lisboa, Portugal 2012







Textos do catálogo da exposição:


TODOS OS ROSTOS

Impossibilidade de fixar corpos e guardar as memórias – parece ser o tema dos sucessivos trabalhos de Rogério Silva. Aqui, confronta-nos com as modalidades de salvaguarda de um rosto que se deixou capturar por uma câmara que o fixou em película e possibilitou a sua reprodução em papel fotográfico.

Como guardar todos os esses rostos desassossegados? Como guardar o que parou mas depois, inevitavelmente, saiu da frente do espelho (como fez em série anterior)? Como perceber o que existe para além das aparências, naquilo que se guarda? Nesta série, a metáfora da revelação, contida no processo fotográfico tradicional, parece estender-se infinitamente a cada novo processo de transferência. Ser e imagem, representação fotográfica ou desenhada revelam camadas sucessivas de realidade. Mas também as ocultam – num processo contínuo de mascarada e desmascaramento.

Fernando Pessoa, assim se chama a “máscara” (a persona) destes trabalhos é, no imaginário cultural nacional, o mais específico dos nossos contemporâneos – mas ele desmultiplica essa especificadade.  Nestes trabalhos, o Múltiplo que foi e que a fotografia registou como Único, revela-se através de uma complexidade que o desenho reinventa: a ficção do amor, o cortante das palavras e a memória da literatura, a obscura caligrafia e a geometria das linhas, o esquecimento dos rostos.

A primeira selecção de imagens fê-la o artista a partir dos milhares de possibilidades que a “arca” pessoana lhe ofereceu. Essa escolha revela o poeta e revela o pintor; a nossa escolha sobre cada uma delas vai-nos revelar a nós.

Ao desenhar o que a fotografia reteve imitando o próprio efeito fotográfico o artista, com a paciência de quem redesenha o real através de exercícios de repetição e interrogação de memória, elimina o mecânico fotográfico desejando restituir a aura perdida às imagens – e diz-nos que o que existe para além das aparências só pode ser alcançado pela obsessão de um persistente olhar e a atenção de uma diligente cópia.

É uma exposição de interrogações. Pessoa, que como ninguém (se) interrogou, interroga as suas multiplicidades; o artista coincide ou acrescenta a essas interrogações os seus próprios labirintos; nós, chegando já com os nossos labirintos interiores, iremos inevitavelmente acrescentar-lhes mais corredores e alçapões, outros impasses, novas saídas...

João Pinharanda
Bragança, 27 Junho 2012





        Quando decidiu representar a “Comédia Humana” com as suas personagens, Honoré de Balzac afirmou que a sua obra seria “la physiologie générale de la destinée humaine”. Conjugando uma ambição de carácter científico com um misticismo cósmico que aprendera lendo Svedenborg, Balzac queria representar a imagem da Humanidade que estava reflectida dentro de si próprio,  que habitava dentro da sua alma.

Fernando Pessoa, que povoou o mundo de personagens, sabia que a sua imagem física era única e “provisória”, como escrevera por detrás de um retrato enviado à Tia Anica. Mas também ele, seguindo o exemplo de Svedenborg, desconfiava da fotografia – talvez pensasse que a imagem (do latim imago, “representação”) não transmite apenas os traços fisionómicos do nosso rosto, mas deixa transparecer o phantasma, como lhe chamaram os Gregos, ou seja, as múltiplas imagens de nós próprios que estão escondidas no nosso pensamento.

A arte do retrato é desde sempre a arte para captar, através da imagem física, a “alma” que se esconde por detrás dela. A fotografia, que na época moderna substituiu o retrato pictórico, constitui, segundo os semiólogos da imagem, uma maneira ainda mais sofisticada e exacta para “apanhar” o phantasma que se manifesta no rosto. É por isso que nós observamos com tanta devoção e curiosidade as fotografias dos artistas que amamos, com o desejo e na esperança de percebermos ainda melhor a essência da sua alma. Mas sabemos que isso não basta, que não é suficiente.

Será que desenhar a fotografia, ou seja, fazer o retrato duma imagem técnica, pode ser uma maneira de ir ainda mais além? O meta-retrato é mais profundo do que o retrato? A sombra de uma sombra é mais do que uma sombra?

É impossível dizê-lo, a propósito de um poeta que escreveu: ‹‹Sinto que sou ninguém salvo uma sombra/De um vulto que não vejo e que me assombra,/E em nada existo como a treva fria››.

Maria José de Lancastre
2012




      
Rogério Paulo da Silva © 2021