Rogério da Silva



Starting from drawing techniques, the process denounces the traditional perceptions of photography. By exploring characters, events or empty interior spaces from archival images, I transport the expression of photographic memory to drawing. So I create a new memory from that expression.

      About


︎︎︎

THE HOUSE OF MIRRORS
Drawing 2010

These drawings are part from the series A Casa dos Espelhos and explore the duality that exists in an image as it is reflected in a mirror and outside of it. This double representation, of the "thing" reflected and of its own reflection, is proposed to us here through the complicity between the image stolen by the drawing and the image that the mirror steals, as two forms of imitation.


A CASA DOS ESPELHOS

Estes desenhos são parte da série A Casa dos Espelhos e exploram a dualidade que existe numa imagem enquanto reflectida num espelho e fora dele. Esta dupla representação, da "coisa" reflectida e do seu próprio reflexo, é-nos proposto aqui através da cumplicidade entre a imagem roubada pelo desenho e a imagem que o espelho rouba, como duas formas de imitação.


Exhibition:
Galeria Palpura, Lisboa

      



O voyeur apanhado pelo mirror-sorcière


Nestas obras de Rogério Silva não há nem dentro nem fora – porque do outro lado do espelho estão sempre os olhos de quem vê; instrumentos que transformam cada coisa vista no corpo inteiro do voyeur.

Toda a explicação científica contida nas leis da reflexão se revela inútil no entendimento do significado dos espelhos. Não soubessemos já (pela investigação anterior de Rogério Silva, e não o soubessemos já pelo que toda a prática artística nos ensina) que qualquer objecto artístico se nega a uma explicação científica e esta exposição de desenhos servir-nos-ia de revelação definitiva dessa impossibilidade.

Assim sendo, as obras de Rogério Silva servem de repetição dessa negação, o que pode ser um bom caminho para o artista começar a afirmar alguma coisa com as suas imagens. Imagens roubadas, como as que os espelhos reais roubam; roubadas de fotografias, como as que a fotografia rouba. Imagens, portanto, que recuperam, através do ofício paciente do desenho minucioso do artista, a alma que lhes foi roubada – lento processo de devolução que se ganha de desenho em desenho, de personagem em personagem, em cada gesto, em cada encenação.

O que vemos são molduras dentro de molduras, espelhamentos simulados dentro da lâmina igualmente fina do papel. Rostos cegos que olham o seu reflexo cego: de alguma forma, somos nós que aparecemos retratados em cada um deles. Trata-se de uma história de duplos, de uma sucessão de episódios onde se expõe a duplicidade fundamental da arte das imagens.

O desenho fica entre dois dos mais significativos registos do real: tem, de um lado, a sombra e, do outro, tem o espelho. Cada um destes modos pode   fingir que imita ou pode propositadamente alterar o real: há o espelho que deforma, a sombra que distorce, o desenho que simplifica, deforma, distorce...

Mas, ainda assim, cada um deles garante diferentes créditos de verismo junto dos observadores. Um espelho é duplicador automático e minucioso da realidade, quando não é um deformador minucioso da realidade nas suas superfícies convexas, côncavas... A cena total dos Arnolfini apenas se vê no espelho côncavo final, Pontormo tem um inquietante auto-retrato frente a um desses espelhos, é ainda um desses espelhos côncavos (mirror-sorcière) que preside à sala de jantar de Vieira e Arpad... todos desejando que o Mundo possa ser apanhado no devir-esfera das suas superfícies. Na Dama de Xangai, como na sala de espelhos das feiras populares, que o artista aqui cita num dos desenhos mais signifitivos da série, o espelho estilhaça a imagem, desdobra-a ao infinito. O espelho é captor, duplicador e inversor, em simultâneo – nele, tudo se repete e tudo se inverte.

Também a sombra, sem inverter, duplica; mas esvazia, devolve-nos o simples contorno das coisas. Finalmente, o desenho, cuja génese o mito relaciona com o registo de uma sombra na parede branca, acabou por interessar-se pelo que a silhueta contém dentro, pelos pormenores. Nessa vocação, supera a sombra imitando o trabalho visual do espelho; funda um conhecimento novo. Porque sombra e reflexo são momentos exteriores ao homem, e fugazes; apenas o desenho é expressão concreta de um desejo, de uma vontade, de um trabalho interior, e persiste. Como a sombra  e o espelho, o desenho nega a profundidade e o volume, nega o registo do tempo na acção representada; mas, ao afirmar o tempo da própria acção de desenhar, persiste como coisa, como obra.

O que reflecte um desenho? A imagem mental do artista; a vontade materializadora do artista. Cada desenho desta nova série de Rogério Silva explicita um pensamento; um pensamento autónomo da palavra que o descreve e da palavra que ensaia interpretá-lo. Cada desenho é um espelho que (se) reflecte apenas (n)o que tem dentro de si mesmo. Olhamo-lo, como se nos olhássemos e esperássemos ver-nos; e o que vemos é um outro personagem, um outro espaço, uma outra vida.

Desengados da possibilidade de entrarmos nessa outra realidade procuramos identificar-nos com cada uma das diferentes personagens que habitam as diferentes molduras: rodamos rápidos num quarto (viagem, vertigem), olhamos o tampo espelhado da mesa, molhamos o rosto na espuma pétrea do mar, tocamo-nos nos dedos ao de leve, porque tememos a realidade do corpo gémeo que nos é oferecido pelo espelho.

Vejamos mais esta dupla negação: um pássaro poisa na superfície de representação e não se duplica; um espelho oferece-nos a prata vazia da sua lâmina e não nos reflecte. Estratégias de discurso destinadas a provar a presença do artista na obra como ser que luta, simultaneamente, ao lado e contra a ilusão, ao lado e contra a realidade, do lado de cá e do lado de lá dos ecrãs onde se projectam as imagens – voyeur(ele e nós) apanhado pelo feitiço dos espelhos.


João Pinharanda
Casas Queimadas, 15 de Fevereiro de 2010

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